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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

GEOJURÍDICAS

Data: 11/8/2011

Alteração no Estatuto da Cidade propõe obrigatoriedade de estudos geocientíficos

Fonte: IGDNews

Projeto de Lei do Senado tem o objetivo de estabelecer a obrigatoriedade da realização de estudos geológicos, geotécnicos e topográficos, prévios, para a construção de qualquer espécie de edificação em encostas de morros, montanhas, maciços, terrenos alagadiços ou sujeitos à inundação e em outras áreas do gênero, comprovadamente de risco.

O autor da proposição, Senador Romeu Tuma, justifica a iniciativa sob o argumento de que as tragédias urbanas ocorridas nas principais cidades brasileiras no início de 2010, em que deslizamentos de terras causaram dezenas de vítimas fatais, foram motivadas por fatores como o excesso de chuvas, a ocupação desordenada do solo urbano e a falta de estudo geológico, geotécnico e topográfico dos terrenos onde são construídos diversos tipos de imóveis.

Segundo o autor, o monitoramento e a manutenção de encostas poderia evitar muitas mortes, pois há sinais que antecedem os deslizamentos, como “trincas em terrenos, rachaduras nos sistemas de drenagem, abatimentos na pista, alagamento de aterros”.

O levantamento requerido avaliaria a estabilidade do terreno, do ponto de vista geotectônico e geotécnico, sua potencialidade pedológica, sua disponibilidade hidrológica e sua compatibilidade com as necessidades humanas em geral.
A proposição foi distribuída às Comissões de Serviços de Infraestrutura (CI) e de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR).

terça-feira, 4 de maio de 2010



Aziz Ab'Sáber luta para preservar sua obra

Morador da Granja Viana, o mais premiado geógrafo brasileiro está doando à Brasiliana quadros e mapas do território nacional feitos com imagens de satélite




Durante os 15 primeiros dias de abril, Aziz Ab"Sáber, o mais premiado geógrafo brasileiro, atravessou repetidas vezes uma mesma estrada, sempre à noite, dentro do câmpus da Universidade de São Paulo (USP) no Butantã, zona oeste. A bordo de sua velha Parati, percorria os 500 metros que separam o Instituto de Estudos Aplicados (IEA) e o laboratório da futura Biblioteca Brasiliana, carregando no porta-malas imagens de satélite emolduradas em ferro, únicos registros fotográficos do Projeto Floram, do qual participou. As quase solitárias incursões noturnas - um motorista o ajudou no transporte dos 28 quadros, que estavam encostados num depósito do IEA - explicam o momento vivido pelo geógrafo. Com mais de 400 trabalhos acadêmicos publicados até hoje, aos 85 anos ele luta para preservar sua obra.
Quando soube do paradeiro das imagens do mais ambicioso plano de reflorestamento brasileiro - cada uma com 1,5 metro de comprimento por 1 metro de largura, que decoraram as paredes do IEA entre 1995 e 2009 -, o geógrafo, morador da região metropolitana de São Paulo há 70 anos, percebeu que, se quisesse evitar que se perdessem, deveria agir. Entrou em contato com a direção da Brasiliana e disse que doaria, além dos quadros, 30 livros originais do Projeto Floram, preparou a Parati e avisou a mulher que não se preocupasse. Em alguns dias daquelas semanas, chegaria mais tarde em casa.
"Não é que iam jogar fora; nem foi assim tão desrespeitoso. Isso acontece em universidades públicas: de repente começa uma obra, alguém pensa que tem de mudar tudo e, quando você vê, o patrimônio pode se perder ou ser levado para algum lugar que não tem nada a ver com sua função", disse o professor numa tarde em sua casa, na Granja Viana, em Cotia. "Já imaginou o desgosto se eu descubro mais tarde que os quadros que eu mesmo doei à USP foram cedidos a algum departamento absolutamente desconectado da Geografia, da Geologia? Melhor evitar."
Ecologia. Dedicado há décadas a investigar fenômenos ligados à ecologia urbana - Aziz produziu os mais completos trabalhos sobre a formação geológica da capital, abordando inclusive a possibilidade de abalos sísmicos -, ele é criador da mais aceita divisão climática do território nacional, levando em consideração relevo, hidrografia e vegetação. Em 70 anos de USP - entrou como estudante em 1940 e em 1956 obteve o doutorado -, publicou estudos e produziu documentos reveladores da formação do território brasileiro.
O esforço para proteger sua obra, conta o descendente de libaneses, serve para evitar que se repita o que aconteceu com os documentos originais do mais famoso trabalho sobre a capital - o livro Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, completo estudo de formação do relevo paulistano, terra que o geógrafo, nascido em São Luís do Paraitinga, adotou aos 16 anos, trazendo toda a família consigo. "Em algum momento, todos os 500 negativos dessa obra, minha tese de doutorado, foram perdidos. Muitas fotografias nunca mais poderão ser reproduzidas", lamenta. "É esse tipo de coisa que quero evitar que se repita."
"Caboclos" paulistanos. Numa tarde de primavera de 1942, o estudante de nome "engraçado" do curso de História e Geografia da USP produzia um trabalho de campo para a faculdade quando se deparou com um rapaz cavando uma vala funda, quatro a cinco metros de profundidade, na várzea do Rio Pinheiros. Geógrafo de formação humanista, daqueles que param para conversar com os habitantes dos locais estudados, Aziz chamou o rapaz. ""Ô caboclo, sobe aqui", falei, e o rapaz veio à tona. Olhei para dentro do buraco e foi então que percebi a massa de areia fantástica que há nas margens dos Rios Pinheiros e Tietê. Vi de verdade o solo da cidade."
Aziz lembraria daquele momento 65 anos mais tarde, enquanto cortava o cabelo no barbeiro de sempre, na Avenida Vital Brasil, no Butantã, zona oeste da capital. "Vi na TV a cratera do metrô e lembrei imediatamente daquele caboclo. Logo depois, escrevi um artigo sobre a importância de estudar esse tipo de solo mais frágil profundamente, antes de grandes obras como aquela", disse. "Algo que obviamente não aconteceu."
Geografia de casa. Além de salvar a obra que doou a instituições públicas, Aziz se vê às voltas com preocupações de ordem mais privada - ele pensa na biblioteca de casa, 20 mil volumes armazenados numa sala de 30 metros quadrados, localizada na área mais baixa do acidentado terreno da Granja Viana onde vive com a família desde 1972. Sem perder tempo, logo se justifica. "Não foi o melhor dos projetos, esses três terraços no meio do morro. É solo vermelho, na época não me ocorreu que poderia dar problema", disse.
Aziz procura formas de restaurar seus livros. "Boa parte, já adianto, vamos doar à Brasiliana. Mas para muitas obras, tenho certeza, não haverá interesse, será repetitivo, então estou estudando o que fazer."
Por enquanto, restou-lhe procurar soluções pontuais: acaba de terminar reforma. Mesmo após um mês de obras, manteve intacta característica que demonstra o zelo do geógrafo. Circundando todo o imóvel, há árvores típicas da mata atlântica, que preservam umidade e luminosidade naturais e dão sustentação ao solo - todas plantadas pelo professor Aziz. "Era lição conhecida. Uma preservação que não poderia deixar de fazer."
- Vitor Hugo Hugo Brandalise - O Estado de S.Paulo

quinta-feira, 18 de março de 2010

Uol - Notícias - Política

18/03/2010 - 07h49

Alencar diz que Estados produtores têm direito adquirido sobre petróleo

Vladimir Platonow
Da Agência Brasil
No Rio de Janeiro


A questão provocada pela Emenda Ibsen, que prevê a redistribuição dos royalties da exploração do petróleo e gás entre os Estados e municípios produtores e não produtores, deve ser discutida no âmbito da Constituição, disse na noite de ontem (17) o presidente da República em exercício, José Alencar. Para Alencar, os Estados produtores, como o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, têm direitos adquiridos.

“Há um direito adquirido dos Estados produtores e obviamente que todos esses contratos e regras já existentes foram objeto de orçamentação do Estado e previsão de investimentos. Isso tem que ser considerado. Além disso, a própria Constituição, quando fala que o subsolo é um bem da União, fala também no direito dos Estados produtores”, disse.

O presidente em exercício afirmou ainda que o Senado Federal saberá tratar do assunto com a serenidade que a questão merece. “Isso tem que ser discutido com paciência, e vai ser discutido no Senado, com calma, ouvindo todos os lados. No Senado é mais fácil, pois cada Estado tem três representantes e é uma casa representativa do sistema federativo nacional”, afirmou.

José Alencar participou da cerimônia de entrega do Prêmio Faz Diferença na noite de ontem, no Rio de Janeiro. O presidente em exercício foi contemplado na categoria País. Perguntado sobre sua eventual candidatura nas eleições deste ano, disse que era um soldado do partido (PRB) e que não sairia candidato apenas por sua conta. “Mas se todos quiserem, eu vou estudar. Porém, só irei se for chamado. E não é só pelo partido não, por todos os partidos que fazem a aliança nacional”.

O presidente da República em exercício também comentou a decisão tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), de manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 8,75%. José Alencar classificou a medida como prudente, mas lembrou que o Brasil ainda detém uma das maiores taxas de juros reais do mundo.

O presidente em exercício permanece no Rio de Janeiro, onde se reunirá hoje (18) com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, na Petrobras. Eles vão discutir com a estatal a construção de uma usina de amônia. A ideia, segundo José Alencar, é construir a usina na cidade de Uberaba, região de grande produção agropecuária do Estado mineiro.


terça-feira, 9 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010




Que Brasil é este?

Valor Econômico

Por Marta Barcellos, do Rio
26/02/2010

O censo demográfico de 2010 ainda não começou, mas um Brasil bem diferente do de dez anos atrás já surge do processo que mobilizará 190 mil recenseadores e 58 milhões de entrevistados a partir de agosto. Neste novo Brasil, a utilização ou não de serviços de internet e telefonia celular ajudará a identificar as condições socioeconômicas das famílias - um papel que cabia ao videocassete e ao forno de microondas em 2000. Neste novo país, ainda, o entrevistado pelo censo poderá se identificar como "cônjuge do mesmo sexo" da pessoa de referência no domicílio (e não mais "o responsável", já que existe a responsabilidade compartilhada). Será indagado sobre rendimentos provenientes do Bolsa Família, parentes que foram tentar a sorte em países estrangeiros e tempo despendido no trajeto de casa até o trabalho ou à escola - questões não investigadas na década anterior.

Se é verdade que se deve julgar um homem por suas perguntas, mais que por suas respostas, como dizia Voltaire, no caso de um país as questões escolhidas para radiografá-lo na maior pesquisa populacional também podem dizer muito sobre ele. As perguntas que constam no questionário final do censo, aprovado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) depois de dez meses de debates, revelam alguns dos pressupostos sobre as mudanças de arranjos familiares, movimentações demográficas e hábitos da população, além de refletirem demandas por políticas públicas e privadas que surgiram em função dessas transformações. Longe de serem "chutes", essas suposições tiveram por base tendências já detectadas em pesquisas menos abrangentes - como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do próprio IBGE, que abrange 140 mil domicílios -, levantamentos específicos feitos por instituições privadas e governamentais e também pressões políticas pela inclusão de perguntas consideradas importantes por ministérios e por segmentos da sociedade organizada.

"Não precisa dizer que é importante", costumavam avisar os técnicos do IBGE no início dos debates realizados a partir de 9 mil sugestões de temas recebidos pelo instituto. "Como tudo é importante, precisávamos olhar o que era viável", afirma o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, dando uma amostra da habilidade política que foi necessária na condução do processo. Na prática, a maioria das propostas era descartada com o argumento de ser mais adequada a pesquisa por amostragem, e não levantamentos que varrem territorialmente o país. Todos os domicílios dos 5.565 municípios brasileiros serão entrevistados ao longo de dois meses, pelo menos em tese. Como a inclusão de novos quesitos implica também aumento do tempo de entrevista, ou retirada de perguntas já consolidadas em censos anteriores, a tradição acabou prevalecendo. Os grupos de homossexuais, por exemplo, não tiveram atendida a reivindicação de inclusão de um quesito específico sobre orientação sexual - embora desde a contagem da população de 2007, feita com questionário simplificado, exista a possibilidade de identificação de um morador como cônjuge do mesmo sexo de outro. Da mesma forma, outros temas delicados propostos, como aborto ou consumo de drogas, ficaram só na pretensão de grupos específicos.

Para testar a eficiência de novas perguntas, foram realizadas provas-piloto em áreas pequenas, no caso de assuntos como população indígena e portadores de deficiências, que já eram investigados pelo censo. Foi assim, por exemplo, que uma pergunta sobre a capacidade do morador de cuidar de si próprio em atividades como vestir-se e tomar banho, considerada importante por especialistas da área, chegou a ser testada e incluída, mas acabou eliminada no enxugamento final do questionário, junto com pelo menos outros dez itens. "Em uma operação complexa como o censo, o tamanho extenso do questionário faz tanto o entrevistado como o entrevistador perderem rendimento", justifica Pereira Nunes, que calcula em 40 minutos o tempo gasto pelos recenseadores para aplicar o formulário mais detalhado do censo. "Preferimos retirar algumas perguntas a blocos inteiros de temas."

Mesmo com tantos filtros, o censo de 2010 terá novidades importantes, emblemáticas da complexidade e da dimensão do país. Ao mesmo tempo em que as línguas indígenas do Brasil rural serão pesquisadas e mapeadas pela primeira vez - uma demanda de demógrafos, áreas do governo que tratam da questão territorial e linguistas, que estimam em 180 os idiomas falados pelos índios -, nas áreas urbanas os moradores terão a chance de revelar quanto tempo gastam de casa até o local de trabalho e estudo. Em ambos os casos, os dados serão valiosos para orientar políticas públicas nas áreas de habitação e transporte. "A priori, não posso afirmar que políticas específicas vão utilizar esses dados, mas o próprio desenho do questionário é produto da integração com ministérios, especialistas e usuários interessados nas informações", diz o presidente do IBGE.

Diante da amplitude e da profundidade do recenseamento, pode-se concluir que não será por falta de informação que políticas eficientes e focadas deixarão de ser executadas. Como a pesquisa de 2010 será georreferenciada, permitindo a localização de cada residência digitalmente, os dados estatísticos poderão ser cruzados com os geográficos, permitindo os mais diversos recortes e estudos. "Numa área em que as crianças estão muito dispersas, por exemplo, pode-se concluir que um bom sistema de transporte é mais importante do que construir uma escola", diz Pereira Nunes.

Mesmo sem precisão espacial, dados semelhantes a esses já eram utilizados de forma rotineira para municípios programarem campanhas de vacinação ou abertura de vagas em escolas, conta o demógrafo Antônio Marangoni, da Fundação Seade, que produz análises e pesquisas a partir dos dados do censo. "Neste período que precede um novo censo, algumas ações chegam a ser adiadas, à espera dos dados atualizados, porque aumenta o risco de subestimarmos o número de vagas necessárias no ensino médio, por exemplo."

Orgulhosos de estimativas precisas feitas a partir de dados nem sempre atuais, os demógrafos amargaram algumas surpresas quando foram revelados os números do censo de 2000. "Percebeu-se uma diferença que só podia ser explicada pela emigração internacional", diz Marangoni. Foi a partir da constatação de que o Brasil, tradicional receptor, poderia estar se tornando um país cedente de imigrantes, que a sugestão de se incluir o tema da emigração foi acolhida - apesar da dificuldade de se chegar a números conclusivos, mesmo com cruzamentos com informações do Ministério das Relações Exteriores e de consulados. Como a pergunta será "Alguma pessoa que morava com você está morando em outro país?", as famílias que viajaram sem deixar parentes não serão contabilizadas. "De qualquer forma, vamos compreender melhor os brasileiros emigrantes, de onde saíram, para onde foram e quando. Continuávamos medindo os estrangeiros que entravam, mas nunca perguntamos sobre os que saíram. Talvez esse saldo hoje seja diferente", diz o presidente do IBGE.

Mais que tudo, porém, está em jogo a projeção da população brasileira para os próximos anos. "As tendências demográficas do país estão bastante aceleradas", diz o geógrafo e economista Cláudio Antonio Gonçalves Egler, professor da UFRJ e membro da comissão consultiva do censo 2010, formada por especialistas que assessoram o IBGE desde abril. "Nosso padrão demográfico está cada vez mais distante da pirâmide etária dos países em desenvolvimento, caminhando para o padrão europeu. Isso vai mudar a face das cidades e determinar a demanda por outros tipos de serviços." Egler diz que o Brasil ainda precisa se acostumar à ideia de mudança na estrutura etária, uma percepção confirmada pela experiência de Marangoni, na Fundação Seade, quando faz estudos para prefeituras do interior do Estado de São Paulo. "Às vezes, um município acredita que estão faltando crianças na escola. Aí confirmamos a redução, e é preciso até eliminar uma classe inteira."

Durante os debates sobre o conteúdo do recenseamento, Egler, que já tinha participado da equipe de avaliação da sustentabilidade do Plano Plurianual (PPA) do governo federal, foi um dos defensores de uma ênfase maior nas questões relacionadas à energia. "A disponibilidade de informações do censo vai ajudar no planejamento de longo prazo do próximo PPA", afirma. Ele elogia as inovações do questionário, justifica os ajustes finais que eliminaram itens, mas ressalta que "a questão da sustentabilidade ainda é exploratória no Censo 2010". "Este será o censo das políticas sociais", diz Egler. "Espero que o próximo seja o censo da sustentabilidade."

Os avanços sociais e econômicos da última década de fato devem ganhar destaque quando os primeiros resultados do censo forem divulgados no final do ano, depois das eleições. "Teremos leituras exaustivas das comparações entre 2010 e 2000", prevê Pereira Nunes. Muitas das grandes transformações serão explicadas por pesquisas anuais que já apontavam tendências como a eletrificação ou a inclusão digital. Os números devem impressionar, mas não surpreender. As surpresas maiores tendem a vir de questões incluídas pela primeira vez no censo, como no caso dos itens sobre deslocamento, emigração e línguas indígenas. Mesmo em quesitos já explorados, há alguma expectativa em relação a perguntas que foram acrescentadas, no intuito de aperfeiçoar a investigação dos temas. No bloco "trabalho e rendimento", por exemplo, a situação do morador que já se declarou como desempregado, em busca de uma vaga, agora é checada com outra indagação: "Se tivesse conseguido trabalho, estaria disponível para assumi-lo na semana que vem?" Na pergunta subsequente, sobre renda mensal, o mesmo morador vai responder se recebe especificamente rendimentos do Bolsa Família, do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e outros programas sociais ou de transferências.

Não é difícil imaginar que o cruzamento de informações desse tipo possa apontar a eficácia, ou as fragilidades, de programas sociais do governo, relacionando-os também a consumo e escolaridade. Pereira Nunes, no entanto, diz que os aperfeiçoamentos na metodologia que apura informações sobre renda e emprego, assim como em outros temas, apenas acompanham as novas recomendações internacionais - no caso, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). "Se a pessoa disser que está procurando emprego e depois que está disponível para assumi-lo, é considerada desempregada. Se não estiver disponível, não vai ser computada. É uma forma de filtrar melhor o conceito de emprego e desemprego."

A medição de rendimentos é uma das peculiaridades do recenseamento brasileiro. "É muito difícil de perguntar", observa o presidente do instituto. Mesmo que sejam revelados com pouca exatidão, os valores podem ser cruzados com outros levantamentos, como Pnad e Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), e são fundamentais para os cálculos das contas nacionais - que, dessa forma, consideram a chamada economia informal.

Em outros países, sem tanta informalidade, o constrangimento de perguntar sobre renda costuma ser evitado, como ficou evidente no contato que os técnicos do IBGE tiveram com observadores internacionais que acompanharam um censo experimental realizado no ano passado no município de Rio Claro (SP). Os representantes de institutos de estatística de Angola, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, México, Equador, Peru, Venezuela, Colômbia e República Dominicana estavam especialmente interessados na parte tecnológica e operacional do censo, mas as diferenças culturais também entraram nas rodas de discussão. Aos olhos estrangeiros, o censo brasileiro pode parecer exótico, não somente por tratar de questões indígenas e urbanas, como por dispensar igual atenção a assuntos considerados tabu em muitos países, como cor da pele e religião. "Na Europa, são temas excluídos, por causa da história de guerras e perseguição político-religiosa, mas aqui tratamos com muita naturalidade", explica Pereira Nunes.

Do ponto de vista prático, o maior interesse em relação ao Censo 2010 deve recair sobre o mapeamento da chamada "nova classe média" brasileira, já que as maiores usuárias dos microdados do IBGE são as empresas de pesquisa de mercado, que orientam os investimentos de redes varejistas, indústrias de bens de consumo, empreendedores de shopping centers, instituições bancárias e de telecomunicações. Com a novidade do georreferenciamento, localizar com precisão os potenciais consumidores (que hoje anseiam por internet e celular, e não mais por videocassete e microondas) ficará muito mais fácil. Ou seja, se as aguardadas políticas públicas não vierem, as ações da iniciativa privada parecem garantidas.

domingo, 28 de fevereiro de 2010


Falhas geológicas brasileiras - onde estão localizadas?

Placas Tectônicas


Os terremotos de grande intensidade ocorrem ao longo da região onde duas ou mais placas tectônicas se encontram. Ali, as rochas comportam-se como corpos elásticos, onde se deformam e acumulam muita energia proveniente da pressão e do stresse provocado pelo movimento entre as placas. A tensão é tanta que em um dado momento ocorre uma ruptura da região e toda a energia acumulada é liberada de uma única vez ou em eventos sucessivos. Isso é um terremoto.


O globo terrestre é formado por doze placas principais e diversas placas secundárias. O Brasil se localiza no centro da placa sul-americana, um local geologicamente estável, mas nem por isso livre de abalos, como pode pensar a maioria das pessoas.

Compilado por Allaoua Saadi (IGC/ UFMG), para ILPII Project "World map of major Active Faults" e revisto por BEZERRA, F.H.R. (DEGEO/UFRN), sob coordenação de MACHETTE, M.N. (USGS).


Falhas geológicas

"Toda placa é recortada por vários pequenos blocos, de várias dimensões. Esses recortes, ou falhas, funcionam como uma ferida que não cicatriza: apesar de serem antigos, podem se abrir a qualquer momento para liberar energia. Se você tem um bloco recortado e o comprime de um lado e de outro, ele rompe onde já existe a fratura”.

O maior número de falhas se concentra nas Regiões Sudeste e Nordeste, seguidas pela Região Norte e Centro-Oeste. A Região Sul é a que apresenta o menor número de falhas.


sábado, 27 de fevereiro de 2010


Saiba mais sobre sobre terremotos e magnitudes



A magnitude mede a potência de um terremoto pela energia que ele libera em seu epicentro e é determinada pelas leituras dos sismógrafos।
Muitos sismólogos utilizam atualmente o termo "magnitude do momento" para terremotos de média e alta potência. A escala é calculada de maneira diferente da antiga escala Richter, mas os valores são comparáveis
A escala é logarítmica. Cada ponto numérico corresponde à liberação de 31 vezes mais energia que a quantidade associada com o valor precedente. Assim, um terremoto de magnitude 7,0 libera cerca de 900 vezes mais energia que um de magnitude 5,0
Um tremor de magnitude 2,0 é normalmente conhecido como o mais baixo perceptível pelas pessoas
O maior terremoto já registrado no Chile ocorreu em 22 de maio de 1960. A magnitude do tremor foi de 9,5. Um tsunami, gerado pelo abalo, atravessou o Oceano Pacífico e deixou dezenas de mortos no Havaí, Japão e outros lugares
O terremoto de 2004 que gerou um tsunami no Oceano Índico teve magnitude 9,15. Já o que devastou a capital do Haiti, Porto Príncipe, em 12 de janeiro, tinha magnitude 7,0
O Japão também utiliza uma outra escala de intensidade sísmica, que vai de 1 a 7, mede a força do abalo e normalmente é mais forte à medida que se aproxima do epicentro de um terremoto
Em um tremor de magnitude 1,0 na escala do Japão, apenas as pessoas em edifícios podem sentir. No 7,0, é impossível mover-se voluntariamente e os móveis se agitam com violência
O epicentro é o local na superfície da Terra verticalmente sobre o foco; o hipocentro, o ponto dentro da Terra onde é gerado o terremoto

Fonte: Serviço Geológico dos Estados Unidos (www।usgs.gov)





Forte terremoto atinge o Chile; 85 morreram, diz governo

Do UOL Notícias*
Em São Paulo

Atualizada às 13h12

Um terremoto de magnitude 8,8 atingiu o centro-sul do Chile na madrugada deste sábado (27), o maior tremor no país em 25 anos. Pelo menos 85 pessoas morreram, segundo a presidente chilena, Michelle Bachelet. No entanto, informações não oficiais indicam pelo menos 122 mortes. "Quero compartilhar a dor dos familiares das mais de 122 pessoas que perderam a vida neste terremoto... É provável que este número aumente. Temos também muitos feridos", disse o presidente eleito Sebastian Piñera para jornalistas. Foi decretado estado de catástrofe no país.

De acordo com o United States Geological Service (USGS, por sua sigla em Inglês), o terremoto teve seu epicentro a 35 quilômetros de profundidade, na região de Bio Bio, a cerca de 320 quilômetros ao sul da capital chilena, Santiago, e a 91 quilômetros ao norte de Concepción.

Pelo menos 13 réplicas de magnitudes entre 6,9 e 5,2 graus na escala Richter ocorreram nas horas posteriores ao primeiro tremor, registrado às 3h26 no horário local, segundo o Escritório Nacional de Emergência (ONEMI) do Chile.

"Quero pedir calma", disse a presidente chilena, Michelle Bachelet, ao convocar uma reunião de emergência para discutir as medidas após o tremor. "Foi de fato um grande terremoto, mas as instituições estão funcionando. Em breve poderemos ter informação visual sobre o que aconteceu", disse.

O maior terremoto a atingir o Chile no século 20 foi um tremor de magnitude 9,5, que atingiu a cidade de Valdívia em 1960, deixando 1.655 mortos.

O aeroporto internacional de Santiago foi fechado por ao menos 24 horas e todos os voos foram cancelados até novo aviso, segundo relatos de funcionários de companhias aéreas. Os voos, quase todos de longa distância e na maioria procedentes de cidades dos Estados Unidos e Europa, estavam sendo desviados para aeroportos na Argentina, principalmente para a cidade de Mendoza. As companhias aéreas brasileiras TAM e Gol anunciaram o cancelamento de seus voos procedentes de ou com destino a Santiago.

O Chile também está problemas de comunicação, com linhas telefônicas sem funcionar. Várias pontes ficaram danificadas, segundo o subsecretário do Interior, Patrício Rosende.

Os danos materiais também estão sendo avaliados pelo governo। Na região de Araucanía, onde houve vítimas, foram relatados danos a hospitais e redes de infraestrutura básica, como água, gás e eletricidade.

Para o sismólogo britânico Roger Musson, o terremoto deste sábado foi "gigantesco". "Qualquer movimento acima de 8 graus é um grande terremoto", precisou o especialista. Segundo o chefe do observatório sismológico da Universidade de Brasília (UnB), Jorge Sands, o tremor pode ter um impacto violento em desastres humanos e um alerta de tsunami foi emitido para as zonas costeiras do Chile, Equador e Peru, e depois estendido para a Colômbia, Panamá, Costa Rica, Antártida, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, as ilhas Pitcairn e a Polinésia Francesa.

Há relatos de que um tsunami tenha atingido a ilha de Juan Fernandez. Áreas da Ilha de Páscoa (que fica a 3.500 km da costa do Chile no Oceano Pacífico) estão sendo evacuadas pela Marinha chilena, devido ao risco de formação de ondas gigantes após o terremoto.

O tremor também poderá causar danos em todas as ilhas do Havaí, afirmou o Centro de Alerta de Tsunamis do Pacífico. "É preciso tomar medidas urgentes para proteger a vida e a propriedade", disse o Centro em um comunicado. "Todas as costas correm perigo, sem importar a direção que estão", acrescentou. Estima-se que a primeira onda do tsunami chegará ao Havaí às 11h19 (18h19 no horário de Brasília).

'Interminável'

De acordo com a correspondente da BBC no Cone Sul Valeria Perasso, na região de Araucanía, onde houve vítimas, foram relatados danos a hospitais e redes de infraestrutura básica, como água, gás e electricidade.

Moradores das zonas atingidas pelo terremoto descreveram o tremor como "interminável", e o estado de choque foi sentido nas ruas, em meio a casas destruídas.

Entretanto, lembrou a jornalista, ainda é cedo para fazer uma avaliação dos prejuízos.

Segundo o USGS, os efeitos do tremor foram percebidos no mar de Valparaíso, na costa a oeste de Santiago.

O leitor Mark Winstanley, que contatou a BBC em Viña del Mar, um balneário próximo de Valparaíso, afirmou que os prédios haviam tremido, mas que ele não havia visto ainda sinais de destruição. Telefones e eletricidade estavam cortados, disse Winstanley.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Oficinas para professores de Geografia

AGB – Associação dos Geógrafos Brasileiros – São Paulo

A AGB-São Paulo está oferecendo de Oficinas para professores de Geografia, com o intuito de contribuir para o desenvolvimento do ensino de Geografia e aproximar os professores do Ensino Fundamental e Médio da produção do conhecimento geográfico.

Inicialmente serão oferecidas três oficinas:

I. A cartografia, o texto e o mapa

Ana Maria Mastrângelo – professora Unicastelo, mestrado pela USP

II. Geografia: Saberes coloniais e eurocentrismo

Rosemberg Ferracini – doutorando na USP,

III. O uso do “google earth” no ensino de Geografia

Wellington José da Silva, graduando pela USP e

André Luiz Sarante, geógrafo pela UFV

Data: sábado, 27 de fevereiro de 2010

Horário: das 9 as 13h

Local: Prédio de Geografia e História

Av. Lineu Prestes, 338 – Cidade Universitária

Público-alvo: Professores do Ensino Fundamental e Médio,

estudantes e interessados em geral

Taxa de inscrição:

Associados da AGB R$ 5,00

Não associados R$ 20,00

Para se inscrever:

Preencha o formulário de inscrição:

1. pessoalmente, na sede;

2. pelo email agbsaopaulo@yahoo.com.br

3. pelo telefone 3091-3758 de segunda à sexta, das 14h as 18h.

Depósito em conta: C/C: 13005033-0 AG. 0658 – SANTANDER

Atenção:

Certifique-se sobre as vagas na oficina escolhida, antes de efetuar o pagamento

da taxa de inscrição no banco.

Confirmação de inscrição no dia 27 de fevereiro, a partir das 8.30 horas:

Apresentar comprovante de pagamento e comprovante de associação 2010.

Apresentar ou indicar a ficha de inscrição preenchida

Observação:

A AGB-São Paulo fornecerá declaração de participação.



Associação dos Geografos Brasileiros
Seção São Paulo
Av. Prof. Lineu Prestes, nº 338 CEP: 05.508-000
Correspondências:
Caixa Postal 78.028
CEP: 05.508-970
Prédio de Geografia e História - São Paulo- SP
e-mail: agbsaopaulo@yahoo.com.br
site: www.agbsaopaulo.org.br
Tel: (11)3091-3758 fax (11)3091-3159 A/C AGB-SP
horário de atendimento seg a sex das 15h às 21h

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Violência repõe luta de classes no centro do debate da esquerda

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16379&boletim_id=641&componente_id=10700

Resultado da ação do Estado que, por um lado, não garante a estrutura necessária para uma vida digna nas grandes cidades e, por outro, responde à criminalidade através de uma intervenção militar nesses territórios, a violência urbana tem transformado as periferias em espaços de resistência. Para o escritor uruguaio Raul Zibechi, a esquerda precisa enxergar este cenário e retomar a luta revolucionária, como uma alternativa ao crime para a juventude e à militarização imposta pelo Estado.

Data: 01/02/2010

O título da mesa, em mais uma das atividades do FSM Temático da Bahia, neste domingo (31), era “Violência nas periferias urbanas e ameaça è democracia”, mas unanimemente, entre palestrantes e participantes, o centro do debate deveria ser a militarização e a violência do Estado nas periferias. A explicação é simples: ao contrário do que propagandeiam os meios de comunicação, os grupos dominantes e os responsáveis pelas políticas de segurança pública no país, o principal responsável pela violência que atinge a imensa maioria das periferias brasileiras não é o crime organizado, e sim o próprio Estado brasileiro.

“A violência de hoje das regiões metropolitanas é sintoma das condições em que vivem os trabalhadores e trabalhadoras nessas áreas. Faltam empregos, urbanização, equipamentos sociais, educação e espaços de convívio social. As pessoas vivem sem acesso aos direitos básicos à sobrevivência humana e, assim, se tornam reféns desta situação, sendo levadas à marginalidade. As áreas dominadas pelo tráfico e pelo crime organizado são aquelas onde o poder público não se faz presente”, explica Bartíria Lima da Costa, presidente da CONAM (Confederação Nacional das Associações de Moradores).

Neste contexto, a resposta do Estado à criminalidade crescente nas periferias não tem sido responder as suas causas estruturais, e sim promover uma intervenção com base na presença da polícia militar. Em muitas regiões, a polícia é a principal ou única presença do Estado nas periferias.

“Isso parte da criminalização da pobreza. No Uruguai, Argentina, Chile há muitas políticas sociais para a periferia, mas uma boa parte delas são formas de disciplinamento dos pobres”, acredita o escritor e ativista uruguaio Raul Zibechi. “A ameaça à democracia, na verdade, vem da suposta resposta que o Estado, apoiado por um setor da sociedade e pela mídia, dá a essa questão da violência: é uma resposta militar, violenta e policial. Tanto que organizações internacionais de direitos humanos já disseram que a polícia brasileira é a que mais mata no mundo. Essa é uma subversão completa da democracia”, critica o carioca Maurício Campos, da Rede Contra a Violência.

Somente em 2008, 2.340 pessoas foram mortas em Salvador e região metropolitana, das quais 60% tinham em seu atestado o auto de resistência da polícia militar. De acordo com a coordenação da campanha “Reaja ou será morta, reaja ou será morto”, o modelo de segurança pública no estado da Bahia não se alterou na gestão atual. “Exigimos a demissão do secretário de segurança pública, César Nunes. Esses números são uma aberração que precisamos bradar pelo país. E este cortejo de defuntos que está atrás de nós nos convida a isso: a reagir”, afirma Hamilton Borges. “Se quisermos sobreviver, precisamos politizar a nossa morte, senão ela passará despercebida. Não somos reféns do medo veiculado pela mídia. Todos os dias somos ameaçados e podemos morrer. Mas o medo não nos neutraliza”, completa.

E se num momento havia a necessidade de um discurso de ataque aos negros e pobres nas periferias, por parte da elite conservadora, agora ele não é mais necessário, analisa a jornalista Suzana Varjão, do Movimento Estado de Paz, que articula comunicadores em torno do debate sobre o tema, e integrante do grupo gestor do Fórum Comunitário de Combate à Violência. Agora, o pensamento está embutido no próprio discurso da imprensa, em diálogo com os interesses das classes dominantes.

Mesmo a violência dos grupos criminosos, que representa um problema sério para as periferias, foi apontada no debate como resultante de uma ação estatal secundada pela classe dominante e pelo setor empresarial: o tráfico internacional e comércio global de armas. Na avaliação de Maurício Campos, a legislação internacional – imposta pelos Estados Unidos e que vigora em todo o mundo, materializada em convenções entre os países – que proíbe a comercialização de todas as drogas, incluindo as que sequer foram desenvolvidas, e, por outro lado, libera totalmente a produção de armas, sem controle dos Estados, criou um cenário propício para a proliferação de grupos armados nas periferias.

“A legislação absoluta conta o comércio de drogas tornou esta indústria extremamente lucrativa e seu combate via repressão tem gerado uma violência enorme. Isso somado à ausência de controle da venda de armas, por uma ação consciente do sistema interestatal, tem levado a uma situação caótica nas periferias”, afirma Campos.

Como pano de fundo desta fórmula mortífera, o crescimento do capitalismo financeiro que, também sem controle dos Estados, permite à indústria da droga esconder seus lucros no sistema monetário internacional, via remessa de dinheiro aos paraísos fiscais.

Território revolucionário
Para Maurício Campo, esta situação permite ao Estado e às classes dominantes manter uma guerra permanente e progressiva contra o povo, utilizando a política de segurança pública como uma forma de elitização das cidades. “Se não percebemos isso, faremos políticas pontuais que não resolverão um problema que é global. Temos que encarar a luta do ponto de vista imperialista. Trata-se aqui de discutir projetos diferentes de organização da sociedade. A violência recoloca a questão da luta de classes, de varrer o que ainda existe de racismo e colonialismo, no centro da nossa reflexão”, afirma.

Se há um aspecto positivo nisso tudo é que a violência dos grupos criminosos e do aparato estatal tem transformado as periferias em territórios de resistência, provocada pelo sentimento de injustiça social e indignação que todas essas populações cotidianamente. Foi isso o que demonstraram os fatos acontecidos em Caracas, na Venezuela, em 1999 ou em Santa Cruz, na Bolívia, em 2008.

“Ali, onde vivem as pessoas que não têm nada a perder, há o único movimento potencialmente anti-sistêmico, e a esquerda precisa compreender esse território a partir de uma análise diferente da que fazem a mídia e as elites. Se compreendermos porque os meninos das periferias entram em relação com o crime, saberemos que buscam, não racionalmente, um pouco de dinheiro, um pouco de sucesso, mas buscam também auto-estima, autonomia, não só financeira, mas pessoal, e buscam poder”, analisa Zibechi.

“Se não formos capazes de mostrar para eles outro pensamento, não vamos mudar essa realidade. E fazer isso significa a retomada, pelos movimentos, da luta pela mudança e pela revolução. Para esses meninos, a luta revolucionaria será uma alternativa, um caminho diferente da militarização, que retomará a utopia real da revolução. Muitos ficarão com o crime, mas muitos virão conosco”, acredita o escritor uruguaio.
“Isso não nos impede de atuar aqui e agora, e operar localmente para combater a violência. Mas a necessidade é a de demolir este modelo de Estado. A perspectiva ainda é a de outro Estado, outro modelo de nação. No capitalismo, nenhum sonho é possível”, conclui Hamilton Borges.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Símbolos religiosos e Estado laico

Valor Econômico

Cláudio Gonçalves Couto
28/01/2010

Na França, uma comissão parlamentar recomendou, no dia 26 de janeiro, o banimento da burca e do nicab, duas vestes muçulmanas que recobrem todo o rosto, ou mesmo todo o corpo das mulheres. Inicialmente, a intenção dos aliados do presidente Nicolas Sarkozy era a de proibir o uso de tais vestimentas em qualquer espaço público, mas diante do receio de que tal interdição fosse considerada inconstitucional, optaram por restringir as vestes apenas nos serviços governamentais franceses (edifícios e transporte), sob pena de que suas usuárias não poderiam ser atendidas caso seus rostos estivessem recobertos. Para dissimular a discriminação com relação às muçulmanas, formalmente a proposta interditou o uso de "máscaras ou disfarces" nas repartições estatais.

Segundo Sarkozy, "A burca não é bem-vinda em território francês", pois torna as muçulmanas "prisioneiras por detrás de uma grade de tecido". Além disto, uma lei em vigor desde 2004 proíbe o uso nas escolas públicas de quaisquer símbolos religiosos - burcas, nicabs, quipas ou crucifixos. Para que se note o ridículo de medidas deste gênero, imagine-se a seguinte situação: um jovem punk que use um corte moicano pintado de rosa-choque não terá qualquer problema para assistir às aulas, mas uma bem mais discreta jovem gótica, que utilize brincos de crucifixo, poderá ser impedida de assistir às aulas. Afinal, o primeiro não ostenta símbolos religiosos, mas a segunda sim.

No Brasil, a proposta do Programa Nacional de Direitos Humanos, de banir das repartições públicas símbolos religiosos, suscitou a seguinte declaração do secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Dimas Lara Barbosa, ao site do jornal "O Globo" (08/01/2010): "Daqui a pouco vamos ter que demolir a estátua do Cristo Redentor, no morro do Corcovado, que ultrapassou a questão religiosa e virou símbolo de uma cidade. Impedir a presença desses símbolos é uma intolerância muito grande. É desconhecer o espírito cristão e religioso da tradição brasileira. (...) absolutamente não tem vínculo com direitos humanos. É a infiltração de uma mentalidade laicista no texto. Direitos humanos é ter liberdade religiosa." Vai no mesmo sentido argumento tecido por Frei Antônio Moser em artigo: "Tentar remover símbolos religiosos, sobretudo no contexto do Brasil, é tentar arrancar sua alma e sua brasilidade. Pois por mais que isto possa desagradar a uns poucos setores da sociedade, convém recordar que o Brasil nasceu aos pés da cruz, quando da primeira Missa celebrada por Frei Henrique de Coimbra. A remoção de símbolos religiosos se constituiria afronta não só religiosa, mas também cultural ao nosso povo. O Brasil, que no início foi batizado com o expressivo nome de ´Terra da Santa Cruz´, não se entenderia a si mesmo sem seus símbolos religiosos e as manifestações de fé de sua gente" (http://noticias.cancaonova.com).

Os argumentos de Sarkozy, de um lado, e dos religiosos brasileiros, de outro, revelam duas formas distintas de insensatez (ou, talvez, desfaçatez). No primeiro caso, a pretensão de garantir o caráter laico do Estado, ou pior, a suposta liberdade das mulheres muçulmanas, esbarra na imposição a estas de uma violência: serão impedidas de se trajar de uma forma que muito provavelmente elas próprias consideram a única moralmente aceitável. Seria como despi-las em público contra sua vontade, alegando ser esta uma forma de libertar-lhes. É provável que, impedidas pelo Estado de recobrir seus rostos em nome de sua "liberdade", sejam proibidas pelos maridos de sair de casa para evitar o risco de uma "indecente" exposição pública. Aqui, em nome da laicidade do Estado, aniquila-se a liberdade pública de seus cidadãos. E o fato de serem poucos (ou poucas) não altera nada.

O argumento dos religiosos brasileiros é igualmente perverso. Nossa história se caracteriza pela simbiose entre a Igreja Católica e o Estado, mas isto não justifica a perda do caráter laico que esse mesmo Estado assumiu com a República e, principalmente, com a democratização do país. Ao longo da história esta simbiose significou a opressão aos que não professavam a religião oficial do Estado. A Constituição de 1824, por exemplo, estabelecia: "A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Imperio. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior do Templo". Ou seja, tivemos no Brasil monárquico como norma constitucional algo similar que hoje na Suíça se institui por meio da proibição à construção dos minaretes islâmicos. Isto realmente é história e faz parte de nossa trajetória, mas as liberdades públicas avançaram muito desde então.

Portanto, embora seja plenamente justificável com base no interesse público a destinação de recursos públicos para a restauração de um templo de valor histórico, nada justifica um crucifixo seja ostentado num tribunal ou numa casa legislativa que lidam com os interesses de cidadãos de diferentes crenças (inclusive os sem qualquer religião). A ostentação de tal símbolo parece indicar que as decisões ali tomadas terão por base os preceitos da religião representada por ele, o que não é aceitável num Estado laico e respeitador do pluralismo de crenças. Apelar à tradição para justificar isto é supor que o hábito cria o direito, algo inadequado em democracias e repúblicas, fundadas na razão. Que tal assunto tenha emergido também no Judiciário indica que avançamos neste ponto.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da PUC-SP e da FGV-SP.

E-mail claudio.couto@fgv.br


domingo, 24 de janeiro de 2010

24/01/2010 - 09h51

Poucos ouvem as más notícias da ciência, diz geóloga

RICARDO MIOTO
da Folha de S.Paulo

"Estou muito triste com a tragédia do Haiti, mas não estou surpresa", diz a cientista. Segundo ela, não dá para saber quando a ciência será capaz de prever a data exata de um grande terremoto. Mas já se sabe com boa precisão onde eles serão e qual sua probabilidade. Ainda assim, os dados produzidos por sismólogos são largamente ignorados na maior parte do mundo.

As ciências da Terra têm conseguido progredir muito nas últimas décadas, mas a sociedade ainda não sabe aproveitar o conhecimento que elas produzem, diz uma das maiores especialistas em terremotos nos EUA. Lisa Grant, da Universidade da Califórnia em Irvine, acaba de publicar na revista "Science" um trabalho estimando a magnitude do grande tremor que a Califórnia está gestando, mas diz que é difícil conseguir se fazer ouvida.

"No Haiti, eles não foram bem utilizados", diz. "A ciência evoluiu, mas o jeito com que a sociedade lida com ela não melhorou." Leia abaixo entrevista que a cientista concedeu à Folha.

*

FOLHA - O terremoto é o pior desastre natural? Qual a sra. escolheria enfrentar entre um furacão como o Katrina e um grande terremoto?
GRANT - O furacão. Nele você perde a infraestrutura, mas tem a chance de correr. No terremoto, não há aviso prévio. Eu não sei se um dia conseguiremos saber precisamente quando um terremoto vai acontecer. Eu estou tentando. É difícil. Hoje, o máximo que podemos fazer é dizer "este lugar é perigoso", mas com o tempo as pessoas esquecem e acabam morrendo soterradas.

FOLHA - As pessoas esquecem?
GRANT - As pessoas não gostam de pensar nisso, porque é assustador. Acham que, se não pensarem, não vai acontecer. Então não se preparam, nem sequer estocam água em casa.

FOLHA - Ainda que alguns geólogos gostem de dizer que, na Califórnia, um grande terremoto já está "no décimo mês de gestação"?
GRANT - É uma boa comparação: você não pode saber exatamente quando um bebê vai nascer, mas pode dizer quando está perto de acontecer. É o caso aqui da Califórnia, com o "big one", tremor muito maior do que o que ocorreu no Haiti. E o que determina o impacto de um terremoto é o quanto você se para se prepara para ele.

FOLHA - A sra. acha que ainda verá um grande terremoto na Califórnia?
GRANT - Há uma probabilidade grande. Por isso estou preocupada. E veja... na minha casa eu tenho 50 galões [quase 200 litros] de água estocada. Estou fazendo tudo para ajudar minha comunidade a se preparar. Falei com o reitor da minha universidade, com o diretor da escola dos meus filhos. É algo que não sai da minha cabeça.

FOLHA - Mas a senhora não está tranquila por estar preparada?
GRANT - Não, porque posso não estar em casa! E se acontecesse agora? Meus filhos estão na escola. Ninguém está em casa a não ser os cães, e eles não sabem como abrir as garrafas d'água. Ontem eu estive com algumas amigas. Estávamos conversando. Nenhuma estoca água; estão muito ocupadas para se preocupar com isso. E me ouviram falar disso por anos!

FOLHA - As pessoas não a encaram como uma "sra. apocalipse"?
GRANT - Sim, até alguns familiares... Você deve conhecer Cassandra, da mitologia grega [para quem Apolo concedeu o dom de prever acontecimentos com a condição de que ninguém acreditasse nela]. Não tenho escolha. Vi os dados, sou especialista em terremotos. Nunca me perdoaria se algo acontecesse e eu não tivesse feito de tudo para alertar as pessoas. Uma descoberta do nosso último trabalho, na revista "Science", é que se você olhar para os últimos cinco grandes terremotos da história da Califórnia, perceberá que as condições de hoje em dia são parecidas. Meu irmão é pastor em uma igreja. Ele prega o evangelho, e eu prego a preparação para o terremoto. [Risos.]

FOLHA - A geologia é uma área de pesquisa popular na Califórnia, disputada por muitos alunos?
GRANT - Não muitos, na verdade. Trabalhamos sempre dando más notícias. As pessoas não querem isso. Sempre tive alunos para ver minhas aulas, mas o interesse em fazer doutorado era bem menor. Mas, com o Haiti e com o tsunami de 2004, o mundo começa a reconhecer que o assunto é importante.

FOLHA - Por que a sra. decidiu entrar no campo das "más notícias'?
GRANT - Por acidente. Eu queria estudar poluição da água. Mas no meu primeiro dia no doutorado, tivemos um terremoto no campus. Com o tempo, vi que nenhum californiano vai morrer bebendo água poluída. Mas temos um risco enorme de terremotos. Então, eu mudei.

FOLHA - Sabemos mais hoje sobre terremotos do que naquela época?
GRANT - Sim. Um monte de lugares perigosos foram identificados, inclusive no Haiti. Mas os dados não foram bem utilizados. Estou muito triste com a tragédia naquele país, mas não estou surpresa. Muitos cientistas já conheciam o risco. Poucos minutos após o terremoto, antes de qualquer notícia aparecer na imprensa, um dos meus colegas parou no meu escritório para me contar. Ele disse: "Parte meu coração pensar nesta tragédia. Vai ser terrível". A ciência evoluiu, mas o jeito com que a sociedade lida com ela não melhorou.

FOLHA - Como assim?
GRANT - Por exemplo, construir prédios resistentes é mais caro. Então, as pessoas ignoram o risco na maior parte do mundo onde há terremotos. Mas a função básica de uma construção é ficar em pé. Não é parecer bonita! Já debati isso com arquitetos. Na Califórnia temos leis para tornar as construções seguras, mas não é assim na maior parte do mundo.

FOLHA - Mas o Haiti não é pobre demais para se importar com isso?
GRANT - Sim, muito pobre. Mas algumas das construções mais críticas deveriam ser seguras. A sede da ONU, o palácio presidencial, os hospitais! Eles vão ter de começar tudo de novo. Seria uma tragédia reconstruir tudo igual, colocar muita gente em áreas de risco, porque esse episódio [o tremor] vai se repetir, mesmo que demore mais de cem anos. É bom estar preparado. Em 1992, tivemos na Califórnia um terremoto similar ao do Haiti. Houve feridos, mas ninguém morreu, porque as construções ficaram em pé.

FOLHA - Mas o furacão Katrina não mostrou que mesmo os EUA falham em se preparar bem?
GRANT - Sim. New Orleans estava em todos os livros de desastres naturais! Eu sempre ensinei que era um lugar com um desastre esperando para acontecer. Perto do nível do mar, de um grande rio, de um lago. Acho que os EUA aprenderam com ele. Espero que, na próxima, a resposta seja mais rápida.

FOLHA - Ir embora da Califórnia já passou pela sua cabeça?
GRANT - Algumas vezes, mas aqui não vai ser tão terrível quanto no Haiti. O que me preocupa são os meus filhos, porque tomo as decisões por eles. O mais novo tem quatro anos. E se um se machucar? Como eu me sentiria? É difícil.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Desmatamento e enchente deixam Pantanal sob risco

Sérgio Adeodato, para o Valor, de São Paulo
21/12/2009

Por conta das chuvas fortes que já ocorrem em dezembro, o Pantanal deverá ter em 2010 uma das maiores cheias da história, segundo estimativa preliminar do Modelad, sistema de monitoramento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "O maior volume de água vai agravar a destruição do rio Taquari, hoje um dos maiores desastres ambientais do país", adverte Emiko Kawakabi de Resende, pesquisadora que há mais de 20 anos estuda os impactos na planície pantaneira. O problema é o intenso assoreamento, causado pelo desmatamento e consequente erosão do solo nas propriedades agrícolas e de criação de gado que ocupam a cabeceira dos rios, no cerrado das partes altas de planalto, no entorno do Pantanal. "A planície está sendo entupida pela terra que há décadas escorre das fazendas rio abaixo, com sérios efeitos econômicos, sociais e ambientais", afirma a pesquisadora. Ela defende a execução imediata de obras para consertar os estragos: "É fundamental manter a pulsação do Pantanal, pois o ciclodas águas rege a vida e a economia da região".


Destruição do rio Taquari, agravada pelas chuvas, ameaça a produção agrícola da região


Em sua opinião é possível recuperar o ambiente e ainda gerar bons negócios na produção agrícola. O foco das atenções é o rio Taquari. Com 801 km de extensão, é o maior afluente do rio Paraguai. A nascente se localiza a 800 metros de altitude, no Planalto Central, em Mato Grosso, compondo uma bacia hidrográfica de 65 mil quilômetros quadrados, a maior parte dentro da planície que compõe o Pantanal. A erosão mudou o fluxo natural das enchentes e vazantes. Transformou uma grande extensão de área em deserto. Em outra parte, 5 mil quilômetros quadrados da planície ficaram permanentemente alagados. O lugar é cemitério de árvores afogadas - uma paisagem lunar, chamada "paliteiros". A produção pesqueira desabou. Sem alternativas, pescadores deslocaram-se para a periferia de cidades maiores, como Corumbá, onde registra-se aumento da violência e da prostituição.

A inundação permanente expulsou o gado, causando grandes prejuízos para os fazendeiros, que viram suas propriedades submergirem. Cerca de 80 médias e grandes fazendas foram atingidas. Quem não faliu arrendou áreas longe dali em condições de produzir. "Tive de comprar terras para deslocar os animais", conta o proprietário Pedro Lacerda, presidente do Sindicado Rural de Corumbá, que teve o rebanho reduzido à metade depois que 60% da propriedade ficou inundada.

Em 30 anos, o prejuízo referente ao gado que deixou de ser comercializado em função dos impactos no rio Taquari atingiu R$ 1,2 bilhão. Além disso, R$ 50 milhões de ICMS deixaram de ser recolhidos. Os números constam de um amplo relatório elaborado pela Embrapa, a partir do qual o governo federal instituiu em 2008 um grupo de trabalho interministerial para apontar soluções. A implantação das medidas está hoje sob a responsabilidade do Ministério da Integração Nacional, que aguarda o novo Orçamento. "As intervenções demoram, porque as autoridades federais acham mais bonito falar da Amazônia", lamenta o senador Delcídio do Amaral (PT-MS), que tentará uma emenda para conseguir R$ 54 milhões do Orçamento, dentro do Plano Plurianual, para o início das obras. "É um trabalho que demorará em torno de seis anos e custará cerca de R$ 800 milhões", prevê o senador.

"É uma intervenção cara e gigantesca, que dever ser contínua, ou seja, não pode parar", diz o engenheiro Andrelino Novazzi, da Transrio, empresa que prestou serviços na recente obra da calha do rio Tietê, em São Paulo, e foi convidada a dar um parecer sobre o caso do Taquari. O estudo, concluído em novembro, foi entregue ao governo estadual para servir de base ao processo de licenciamento ambiental da obra. O relatório compilou trabalhos da Embrapa e de outras instituições e considerou diferentes pontos de vista e interesses. As medidas incluem fazer dragagens para retirar areia do leito do rio, reflorestar as margens e construir canais para garantir o ciclo de vazão e enchentes em equilíbrio. Novazzi ressalva: "Nada adiantará se não houver ações para as áreas de cultivo do planalto, diminuindo a areia que chega ao rio e, através dele, ao Pantanal".

A obra é polêmica. "Mexer pode piorar", alerta o pesquisador Paulo Boggiani, da Universidade de São Paulo. Sem reflorestar as partes altas, "a solução será paliativa". Recente estudo realizado por cinco organizações ambientalistas - Conservação Internacional, WWF-Brasil, SOS Mata Atlântica, Avina e Ecoa - detectou que restam apenas 40% da vegetação original em toda a bacia do rio Paraguai, incluindo a planície inundável que constitui o bioma do Pantanal propriamente dito e o planalto de Cerrado em seu entorno. A situação é mais grave no planalto, onde 58% das matas estão comprometidas. A situação preocupa porque dois terços da água que circula no Pantanal nascem nas áreas agrícolas do Mato Grosso. Nessa região, boas práticas como curvas de nível e plantios diretos começam a ser adotadas. Mas, segundo os pesquisadores, faltam avanços na pecuária, atingida pelo empobrecimento dos solos